quinta-feira, 7 de maio de 2015

Em Berilo, Ermínio Coelho Oliveira, Seu Landrinho, contemplando as imagens do livro "Reflexos ao calor do Vale".



Ermínio Coelho Oliveira










Um amigo de se cultivar no sempre, Alessandro Borges do Rosário, lá das terras de Berilo,
me apresentou o Seu Landrinho, Erminio Coelho Oliveira, 76 anos, numa tarde de domingo ensolarado de abril. Já no primeiro olhar, me senti impressionado por aquele homem, a sua
barba, as suas mãos, o olhar...
Me recordei de Manuelzão, do nosso primeiro encontro, noite fria de junho em Cordisburgo,
o universo do velho Rosa. O sertão... Relatei ao Seu Landrinho as minhas impressões, ele
me ouviu, o sorriso de compreensão, a voz cuidadosa:
O senhor sabe, nunca ouvi falar desses homem, João Guimarães, Manuelzão... nunca 
mesmo. Pode até de parecer coincidência, mas nós mexia com boi, eu e meu irmão. 
Entre tanta outras coisas que'u aprendi fazer na vida, foi de ser boiadeiro por mais de uns 
vinte ano, tangendo gado pelos norte afora. Bocaiuva, Montes Claros, Capelinha, Resplandor... 
Era oito dias na estrada daqui a Montes Claros... Agora tudo acabou... Parei só quando o boi enricou, tão andando agora até de avião. Quando o boi era pobre, nós ia daqui a Capelinha 
até três vez no mês, tudo em lombo de burro... Era muito bom, a gente barrancava era 
quando não achava pouso debaixo de árvore, nas beira dos córregos, os rios, tinha muita 
água naqueles tempo... Era tudo muito bom! Depois eu fui para São Paulo... trabalhei muito...
Seu Landrino recebeu o meu livro com um cuidado excessivo, como se não soubesse o que
fazer. Sentou novamente, abriu página por página, uma ou outra pergunta, a voz rouca:
Que maravilha... Uma santa... O barqueiro no rio... Minha mãe também era parteira... A roda
de fiar... Daqui a Chapada do Norte num tinha um pau de cerca, os bicho era tudo brabo, 
tudo pegado a laço mesmo... Nós era doze irmão, hoje só eu e mais um, o José...
Me despedi de Seu Landrinho prometendo voltar com umas fotos de presente.
Mas o senhor volta mesmo, fico esperando, muito agradecido o senhor. Deus acompanha,
o senhor volta... Deus lhe pague...

                                                                                                          Lori Figueiró


Que belezura o seu livro "Reflexos ao calor do Vale".
Suas fotos despertaram em mim uma saudade tão boa de Minas,
minha terra de coração! Em cada página um carinho, uma acolhida!
Saberes, fazeres e dizeres... tantas lembranças!
O amor pelo Jequitinhonha é fogo que nunca se apaga...
Parabéns pelo belo trabalho!

Denise Martins

 
Pois é, meu caro Lori Figueiró. Um livro é sempre uma condição que o escritor
vive para projetar um assunto para um certo leitor que entra no corpo desse
projeto de assunto. Mas o leitor também tem lá o seu projeto de linguagem
para o texto que o escritor escreveu. Ou seja, o leitor tem lá, a sua moda, um
jeito de escrever o texto que outro escreveu. E aí acontece um jeito de escrever
e ler marcado pelo cruzamento de vozes que acabam por coincidirem e não
coincidirem no que dizem : ao ler as suas imagens no Reflexos ao calor do Vale,
ao coincidir com o que você registra, Seu Landrinho acaba por contar uma outra
história que não coincide com o seu dizer de fotógrafo. Daí, a meu ver, a riqueza
da condição do livro.
Abraços.

Edson Nascimento Campos


Nenhum comentário:

Postar um comentário